Il Manifesto

https://ilmanifesto.it/andre-komatsu-dal-controllo-sociale-allautosorveglianza

 

1 – Você pode explicar o título desta exposição, Abismo? O seu abismo é um lugar incognoscível ou um mundo alternativo ao real?

O Abismo pode ser uma forma de desconstruir a realidade. O “sem fundo” pode ter um significado negativo de nenhuma esperança, uma atmosfera distópica de escuridão, como à referencia do periodo de isolamento social no mundo pelo covid-19, ou para  nós do Brasil, o  experimento de um governo que utilizou nos ultimos 4 anos de uma politica da morte para manipular, converter e controlar  a população.

2 – Nesta exposição, a imagem é muitas vezes negada, apagada, aprisionada ou acorrentada. Essas obras são uma metáfora para as práticas de poder, vigilância e controle?

Sim. Acho que parte das obras da exposicao utilizam dessas metaforas para trazerem um dialogo ao estado do real que vivemos.

As praticas de poder,  sempre foram maneiras de estabelecer o controle sobre o outro. Sendo através  de uma reestruturação urbanistica como fez Georges-Eugène Haussmann  no seculo XIX em Paris.Ou mesmo  na estrutura escolar, familiar.

 A reformulação da Champs Elysées, criou uma estrela de 12 avenidas largas e extensas em linha reta, tendo em seu centro o Arco do triunfo. Este um monumento de grandes dimensões que enaltecia as vitórias de Napoleão Bonaparte. Esta nova malha urbanística aos moldes militares, criava uma nova estratégia em conter qualquer manifesto divergente ao governo, por lá poderem ser instaurados canhões para longo alcance. Além de, por serem vias largas e retas, a possibilidade em criar fugas ou atritos seria quase impossível. O eixo criado pelas vias possibilitava o acesso e controle de qualquer manifesto rapidamente, por todas as direções.

No entanto acho que essas praticas hoje em  dia veem sendo aprimoradas e alteradas. Com menos  fisicalidade, materia, corpo. Hoje o controle acaba sendo de nos proprios,  a auto vigilancia e auto punicao. Desde a ïnvenção” do empreendedor sobre o manto neoliberal , tornamo-nos nossos proprios carrascos.

3 – Por que você usa jornais como veículo para obscurecer e censurar pensamentos?

Em Contrato social, estabeleco uma dualidade em relacao a representacao do objeto e sua metafora enquanto uso.

O jornal como o meio de  encaminhar a informacao cotidiana, portanto uma das  bases estruturais  para entender  a realidade. MAs ao mesmo tempo, o jornal possui uma  marca, um  nome. A informacao contida é encaminhada de acordo com  o interesse privado  de cada um. Por outro lado, a folha de chumbo , que envolve  e isola o jornal como um origami ( tecnica de dobradura japonesa), o proteje  como um escudo.  A dualidade  em ambos  materiais,  a realidade em estabelecer a segurança x isolamento, a protecao x  envenenamento, a informacao x desinformacao, o fato real  x a invenção.

4 – A pandemia mudou para sempre nossa percepção do mundo. Também mudou a forma de fazer arte ou os objetivos de um artista (como você)?

A pandemia  intensificou  o nosso isolamento social,  assim como o abismo socio economico da população aqui no Brasil. Nos tornou mais segregados e mais sucetiveis à sermos manipulados.

Antes da pandemia  ja vinha atuando  em outras frentes, afim de ampliar e amplificar ações e questionamentos com relação ao campo da arte, socio-politico.  Desde que tivemos o golpe  de Dilma Rousseff em 2016, comecei a fazer parte de alguns coletivos artisticos, politicos, e socio-educacionais. Entendendo que  somente o trabalho de arte enquanto pensamento e produção, nao iria seguir alem da bolha do estabelecido.

Desde entao, com o Aparelhamento (2016), fizemos diversas acoes contra golpe, e uma das acoes mais duradouras foram a criacao de uma cozinha coletiva dentro da ocupação 9 de julho ( hoje ja tem sua indepenedencia ) e a galeria Reocupa, uma galeria de arte , tambem dentro do mesmo predio. A criação de um espaco de arte comercial  num predio ocupado e gerenciado pelo Movimento sem teto do centro (MSTC), surgiu como um apoio contra  a tentativa  do Estado em  reapropriar a área ocupada. Os trabalhos de arte, numa possivel reapropriação serviriam como uma barreira legal.Ja que nesta ação o Estado teria que  zelar e criar  um seguro para aqueles trabalhos, gerando custos exorbitantes à administração. Usar o sistema e mercado de arte afim de protejer  um movimento de luta por moradia.

Alem dessas ações , durante a pandemia e mesmo o governo bolsonaro conseguimos arrecadar e distribuir cestas basicas de alimento e limpeza  à outros grupos  vuneraveis ( artisticos, indigenas, perifericos), como praticar acoes  publicas  denunciando a politica genocida do antigo presidente.

Com o Ali:leste (2018), um grupo criado por artistas com o intuito em criar uma rede de conexoes entre o centro artistico-comercial e o extremo leste periférico de são paulo. Promovendo cursos, acompanhamentos , rodas de conversa e elos entre pessoas perifericas à instituições de arte.

5 – O que você acha do novo rumo político do Brasil?

Se tivessemos mais 4 anos  do governo bolsonaro estariamos mortos. O novo rumo iniciado esse ano com Lula, propiciou a retomada da democracia no pais. Apesar de compreender que  sua governabilidade se deu por conta de inumeros apoios  de diferentes interesses politicos, economicos e sociais.

Lula tem se dedicado a diversos asssuntos  nacionais e internacionais. No entanto grande parte do foco tem sido em reparar os terriveis danos causados pelo governo genocida de Bolsonaro, sejam atraves  de investigações sobre  a facilitação da entrada de garimpeiros à area de preserva indigena yanomami, o completo descaso ao auxilo aos mesmos, a utilizacao da maquina publica em interesses particulares afim de favorecer a famila e apoiadores ( agronegocio, o exercito e  evangelistas). Como tambem restaurar ministerios,  intervir no sistema de divulgacao de fakenews,..

6 – Você é um brasileiro de terceira geração descendente de japoneses. Como o cruzamento de culturas afeta sua prática artística?

Até o ano passado, entendia a referencia da cultura japonesa apenas como uma heranca familiar.Ano passado por conta da Aichi trienal em Nagoia, tive a oportunidadede ir pela primeira vez ao   país  por algumas semanas.A primeira impressao  me pareceu um lugar completamente diferente do Brasil, de sao paulo. A ordem no fluxo de pessoas, a limpeza das ruas, o silencio e o respeito com o outro. No entanto, apesar de apresentar  essas diferenças comecei  a diagnosticar  uma semelhança  mesmo por mecanismos distintos: a violencia estrutural.

A sociedade japonesa é estabelecida pela honra, a hierarquia como forma regulamentadora da sociedade. Que ao mesmo tempo  rompe as barreiras fisicas estabelecendo um padrão  quanto ao comportamento social. No Brasil, apesar de nao termos  esses padroes,  vivemos em constante violencia, seja visual atraves de arquiteuras de segurança, desiguladades socio-economicas. A ordem  aqui se estabelece ainda em sua maioria pela força fisica.

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